quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Aurora e o capitão

A poeira se mantinha sobre os móveis foscos da sala de estar, o velho relógio na parede ressonava três da tarde. Badalos lúbricos de pavor soavam de dentro dele. Baratas e ratos tomavam conta dos buracos escondidos no chão de taco. O armário, no canto, guardava relíquias de tempos mortos, esquecidos pela mente já frágil de Aurora. Seus olhos, opacos, vislumbravam o espelho. Quem era aquela mulher? Perguntava-se. Retratos antigos mantinham-se imóveis nas paredes, outrora brancas. Aurora passa levemente os dedos sobre o rosto do falecido capitão da Guarda Nacional. Sua face impenetrável, sua farda impecável. O bigode ralo, como era moda na época, fez do capitão figura lendária na pequena cidade do interior. Morreu em combate, era o que desejara. Deixou seis filhos, pra serem cuidados por Aurora, ainda muito jovem na época. A velha mirou-se mais uma vez no espelho, a catarata lhe impedia um pouco a visão, mas mesmo assim ela enxergou. Enxergou o que não queria, o que evitara todos esses anos. Todos os filhos crescidos, todos criados com muito amor. Tinha agora netos, até bisnetos, todos lindos, todos tolos. Aurora ergueu o já batido vestido até a altura dos seios. Seus olhos marejavam, sua luta incessante em não deixar as lágrimas rolarem foi em vão. Aurora desaba, se contorce, luta contra a dor de estar velha, luta contra a dor de não ter amado outra vez. O capitão, impassível, assiste tudo em seu quadro na parede. Parece que ele simula um leve sorriso. Aurora fita-o, reúne suas últimas forças e balbucia: Filho da puta...
Aurora veio a falecer ali, naquela hora, no mesmo segundo da última palavra que disse ao capitão. Seu corpo só foi achado cinco dias depois, quando um vizinho sentiu o cheiro de carne podre vindo de dentro da antiga casa de alvenaria, velada por anos pela pobre Aurora, que se manteve pura desde a morte do capitão, que todos sabiam, vivia em puteiros pela cidade. Deixou filhos e amores por toda cidade que passou quando estava em combate, morreu justamente na cama de outra, mulher de outro matador, só que esse não era reconhecido por seus feitos. Esse não era condecorado por matar. Não tinha fama, nem prestígio, mas tinha caráter. Matou o capitão com um tiro certeiro na testa, matou a mulher com dois tiros no peito, e matou a si, com um tiro na boca. Aurora agora ia reencontrar o capitão, e quem sabe, seu matador. Conheceria toda a verdade, e, se conheço Aurora, vai trepar com o primeiro anjo que encontrar. Só pra irritar o capitão.

Um comentário:

Anônimo disse...

Hauahau..

Adorei..

Bjus