quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

conversa pra boi dormir




Saiu de casa apressado, tropeçando em velhas caixas de madeira. Espalhafatoso como sempre, lembrara de um fato inconveniente. Não sabias mais como mudar, tudo em sua vida o levava ao descaso. Donato foi um dia um homem sério, casou-se, levava uma vida “normal”. O álcool lhe tirava os sentidos, transformara-o em algo disforme, distante de tudo que sonhara um dia. Mas, foda-se. Pensava. Tudo não passava de uma fase, uma porra de uma fase. Iria superá-la, ia vivendo, um dia após o outro, como lhe ensinaram um dia. Seus pais, seus amigos, todos à sua volta lhe davam conselhos cretinos. De como viveria sua vida.
- Donato, você está se acabando rapaz! Pare de beber! Pare de fumar! Pare de trepar! Pare! Pare! Pare!
Parece que as pessoas sabiam apenas essa frase: Pare! Pare!
Porra! Donato era dono de seu nariz! Sabia muito bem a hora de fazer as coisas, sabia o nível do álcool que ainda podia ingerir, sabia a quantidade de maconha que podia fumar, sabia quando e onde podia cheirar. Mas ninguém entendia Donato. Um filho da puta que tinha tudo acabou-se com nada.
Pensava com pesar: Ainda vou tomar tudo que me roubaram, principalmente a vergonha!
Foi nesse instante, sentado em um balcão de um bar qualquer na rua Augusta que ele viu Dorinha. Foi paixão à primeira vista. Não que Donato acreditasse nisso, mas Eu, que estou escrevendo esta merda, acredito.

sábado, 15 de dezembro de 2007

subindo a descida


Em uma escura e profunda noite clara,
O sol raiava e a chuva caía.
Enquanto os pássaros pastavam,
As vacas, de galho em galho pulavam.
Um vulto negro, inteiro de branco,
Nu, vestido em cetim, sentado em pé,
Em uma pedra de madeira, calado dizia:
Eu morro, mas não perco a vida.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

será?!

Seria mais fácil não ter medo,
Seria mais fácil não ter amado.
Seria mais fácil não tentar,
Seria mais fácil ter imaginado.
Seria mais nobre viver atento,
Seria mais nobre sofrer calado.
Seria mais nobre sentir o vento,
Seria mais nobre evitar o lado.
Seria mais louco soprar o barco,
Seria mais louco parar o mundo.
Seria mais louco pensar a fundo.
Seria mais louco sentir o asco.
Seria mais fácil ser nobre,
Seria mais nobre ser louco.
Seria mais louco ser fácil.
Seria mais lindo ser puro.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Aurora e o capitão

A poeira se mantinha sobre os móveis foscos da sala de estar, o velho relógio na parede ressonava três da tarde. Badalos lúbricos de pavor soavam de dentro dele. Baratas e ratos tomavam conta dos buracos escondidos no chão de taco. O armário, no canto, guardava relíquias de tempos mortos, esquecidos pela mente já frágil de Aurora. Seus olhos, opacos, vislumbravam o espelho. Quem era aquela mulher? Perguntava-se. Retratos antigos mantinham-se imóveis nas paredes, outrora brancas. Aurora passa levemente os dedos sobre o rosto do falecido capitão da Guarda Nacional. Sua face impenetrável, sua farda impecável. O bigode ralo, como era moda na época, fez do capitão figura lendária na pequena cidade do interior. Morreu em combate, era o que desejara. Deixou seis filhos, pra serem cuidados por Aurora, ainda muito jovem na época. A velha mirou-se mais uma vez no espelho, a catarata lhe impedia um pouco a visão, mas mesmo assim ela enxergou. Enxergou o que não queria, o que evitara todos esses anos. Todos os filhos crescidos, todos criados com muito amor. Tinha agora netos, até bisnetos, todos lindos, todos tolos. Aurora ergueu o já batido vestido até a altura dos seios. Seus olhos marejavam, sua luta incessante em não deixar as lágrimas rolarem foi em vão. Aurora desaba, se contorce, luta contra a dor de estar velha, luta contra a dor de não ter amado outra vez. O capitão, impassível, assiste tudo em seu quadro na parede. Parece que ele simula um leve sorriso. Aurora fita-o, reúne suas últimas forças e balbucia: Filho da puta...
Aurora veio a falecer ali, naquela hora, no mesmo segundo da última palavra que disse ao capitão. Seu corpo só foi achado cinco dias depois, quando um vizinho sentiu o cheiro de carne podre vindo de dentro da antiga casa de alvenaria, velada por anos pela pobre Aurora, que se manteve pura desde a morte do capitão, que todos sabiam, vivia em puteiros pela cidade. Deixou filhos e amores por toda cidade que passou quando estava em combate, morreu justamente na cama de outra, mulher de outro matador, só que esse não era reconhecido por seus feitos. Esse não era condecorado por matar. Não tinha fama, nem prestígio, mas tinha caráter. Matou o capitão com um tiro certeiro na testa, matou a mulher com dois tiros no peito, e matou a si, com um tiro na boca. Aurora agora ia reencontrar o capitão, e quem sabe, seu matador. Conheceria toda a verdade, e, se conheço Aurora, vai trepar com o primeiro anjo que encontrar. Só pra irritar o capitão.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

sempre haverá uma primeira parte

- Aceita outro café?
- Não, obrigado. Me traga a conta, sim?
- Um momento senhor.
E o garçom saiu, um pouco irritado, afinal, o sujeito estava ali à uma hora e meia e apenas tinha consumido um café.
- Aqui está senhor.
- Obrigado.
O cidadão sacou uma nota de cinco reais, colocou dentro da pequena pasta preta com o logo da Visa em baixo relevo, e saiu. Caminhando trôpego pela praça Benedito Calixto, ainda estava bêbado.
João Donato era seu nome, mas não o ilustre compositor. Um ilustre desconhecido.
“João Donato era o maioral, o nosso Doni era um cara legal...” Roubado de um certo Renato, que de russo não tinha nada.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

pAlavRa

Palavra
Apenas, palavra...

sempre, palavra.

Letras acomodadas, globo de velas.

Espera, ameba.
Lenta e voraz...
Bela, sincera.

Acomoda a paz.
Cria, almeja.
Sempre iguais...
Palavras, singelas.

Palavras...