Acorda com um pulo. A respiração é pesada,
a cada arfada de ar seu peito chia.
Olha para o lado e vê uma garrafa de
Jameson deitada no carpete encardido.
O cinzeiro em cima do criado mudo,
transborda bitucas e cinzas.
Guimbas amarelas e brancas. As amarelas,
levemente mordidas, sabe que são suas. As brancas, com marcas de batom, não faz
idéia de quem sejam. Ou foram.
Olha para o outro lado. Está sozinho na
cama.
Deita a cabeça no travesseiro e fecha os
olhos, levanta o braço e o apóia na testa.
Tateia o móvel ao lado procurando por um
maço de cigarros.
Acha.
Está vazio.
Com um esforço titânico consegue sentar na
cama, mas não sem antes dar um grunhido com a latejada quase funesta com que é
recebido nas têmporas.
Percebe que ainda está de calças, meias e
sapatos.
Com um segundo esforço hercúleo consegue se
levantar.
As forças lhe faltam e é obrigado a se
apoiar no móvel da TV.
Pensa em como chegou aquele ponto.
“Que diabos fiz?”
Caminha sôfrego até a porta e a abre.
Percebe que ainda é noite. Vai até o banheiro e acende a luz. Seus olhos sofrem
até se acostumar com a claridade. Apóia as duas mãos na pia e se encara no
espelho. O que vê é deprimente.
Fica se olhando. Analisando seu nariz, seus
olhos, seus cabelos.
E começa a perceber que seus movimentos não
o acompanham. Vira a cabeça para um lado, sem tirar os olhos do espelho, e vê
que seu reflexo permanece o encarando, sem um movimento sequer. Levanta as mãos
e massageia as maçãs do rosto. Seu reflexo permanece imóvel.
Sem mais, seu reflexo olha para baixo, respira
fundo e volta a o encarar. Passa as mãos pelo cabelo desalinhado e diz – “é o
fim companheiro.”
Seu olhar é de desdém. Pega um cigarro e o
acende com um fósforo. Atônito, o sujeito olha para a pia, procurando pelos
cigarros mas nada encontra.
Seu reflexo dá uma tragada funda no cigarro
e o encara novamente. Agora seu olhar é de desprezo.
Solta círculos perfeitos de fumaça. Ainda o
encarando.
“Que foi? Você escolheu isso.” – diz, agora
soltando fumaça pelo nariz.
Apaga o cigarro no sabonete e o encara mais
uma vez. Agora seu olhar é de ódio.
“Levanta essa bunda de onde quer que seja e
recomeça!” – grita, exibindo os dentes amarelados de cigarro e café.
Os olhos arregalados e a boca semi-aberta
do sujeito traem qualquer tentativa que venha a lhe passar pela cabeça
demonstrando frieza.
Suas mãos ainda estão apoiadas no mármore
frio da pia.
Seu reflexo suspira, olha as unhas, e o
ataca. Estilhaçando o vidro que os separa e segura seu pescoço com as duas
mãos. Seus olhos queimam e as veias de suas têmporas ameaçam estourar.
Sentindo que as mãos lhe apertam o pescoço
cada vez mais, ele tenta gritar. Mas seus gritos são abafados pela respiração
satânica do seu inusitado oponente. Ele segura seus braços, tentando em vão
tirar aquelas mãos do seu pescoço, mas acaba desistindo.
Pensa em sua vida e em como chegou até ali.
Seu nariz começa a sangrar e ele sente as
lágrimas descendo pela sua face. Aos poucos suas mãos começam a perder a força.
No momento em que está quase perdendo a consciência, seu reflexo grita – “É
isso? É assim que vai acabar, seu bostinha?” “Não vai nem tentar lutar? Tentar
reagir?” “Não consegues nem enfrentar a você mesmo?”
Aí ele acorda.
Seu peito sobe e desce num ritmo frenético.
Seu pescoço empapado em suor. Seus cabelos estão molhados. Olha para o lado e o
relógio está marcando quatro e meia.
Sabe que tem que levantar.
Olha para as próprias mão e pensa – “O que
sobrou?”
Sobrou apenas a marca sem cor em seu dedo
anelar.
Respira fundo, encara o teto do quarto e se
senta.
“Não. Não é assim que acaba. Ainda tenho
muito a fazer.”
Levanta da cama, e faz.
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