segunda-feira, 29 de abril de 2013

o que sobrou

Acorda com um pulo. A respiração é pesada, a cada arfada de ar seu peito chia.
Olha para o lado e vê uma garrafa de Jameson deitada no carpete encardido.
O cinzeiro em cima do criado mudo, transborda bitucas e cinzas.
Guimbas amarelas e brancas. As amarelas, levemente mordidas, sabe que são suas. As brancas, com marcas de batom, não faz idéia de quem sejam. Ou foram.
Olha para o outro lado. Está sozinho na cama.
Deita a cabeça no travesseiro e fecha os olhos, levanta o braço e o apóia na testa.
Tateia o móvel ao lado procurando por um maço de cigarros.
Acha.
Está vazio.
Com um esforço titânico consegue sentar na cama, mas não sem antes dar um grunhido com a latejada quase funesta com que é recebido nas têmporas.
Percebe que ainda está de calças, meias e sapatos.
Com um segundo esforço hercúleo consegue se levantar.
As forças lhe faltam e é obrigado a se apoiar no móvel da TV.
Pensa em como chegou aquele ponto.
“Que diabos fiz?”
Caminha sôfrego até a porta e a abre. Percebe que ainda é noite. Vai até o banheiro e acende a luz. Seus olhos sofrem até se acostumar com a claridade. Apóia as duas mãos na pia e se encara no espelho. O que vê é deprimente.
Fica se olhando. Analisando seu nariz, seus olhos, seus cabelos.
E começa a perceber que seus movimentos não o acompanham. Vira a cabeça para um lado, sem tirar os olhos do espelho, e vê que seu reflexo permanece o encarando, sem um movimento sequer. Levanta as mãos e massageia as maçãs do rosto. Seu reflexo permanece imóvel.
Sem mais, seu reflexo olha para baixo, respira fundo e volta a o encarar. Passa as mãos pelo cabelo desalinhado e diz – “é o fim companheiro.”
Seu olhar é de desdém. Pega um cigarro e o acende com um fósforo. Atônito, o sujeito olha para a pia, procurando pelos cigarros mas nada encontra.
Seu reflexo dá uma tragada funda no cigarro e o encara novamente. Agora seu olhar é de desprezo.
Solta círculos perfeitos de fumaça. Ainda o encarando.
“Que foi? Você escolheu isso.” – diz, agora soltando fumaça pelo nariz.
Apaga o cigarro no sabonete e o encara mais uma vez. Agora seu olhar é de ódio.
“Levanta essa bunda de onde quer que seja e recomeça!” – grita, exibindo os dentes amarelados de cigarro e café.
Os olhos arregalados e a boca semi-aberta do sujeito traem qualquer tentativa que venha a lhe passar pela cabeça demonstrando frieza.
Suas mãos ainda estão apoiadas no mármore frio da pia.
Seu reflexo suspira, olha as unhas, e o ataca. Estilhaçando o vidro que os separa e segura seu pescoço com as duas mãos. Seus olhos queimam e as veias de suas têmporas ameaçam estourar.
Sentindo que as mãos lhe apertam o pescoço cada vez mais, ele tenta gritar. Mas seus gritos são abafados pela respiração satânica do seu inusitado oponente. Ele segura seus braços, tentando em vão tirar aquelas mãos do seu pescoço, mas acaba desistindo.
Pensa em sua vida e em como chegou até ali.
Seu nariz começa a sangrar e ele sente as lágrimas descendo pela sua face. Aos poucos suas mãos começam a perder a força. No momento em que está quase perdendo a consciência, seu reflexo grita – “É isso? É assim que vai acabar, seu bostinha?” “Não vai nem tentar lutar? Tentar reagir?” “Não consegues nem enfrentar a você mesmo?”
Aí ele acorda.
Seu peito sobe e desce num ritmo frenético. Seu pescoço empapado em suor. Seus cabelos estão molhados. Olha para o lado e o relógio está marcando quatro e meia.
Sabe que tem que levantar.
Olha para as próprias mão e pensa – “O que sobrou?”
Sobrou apenas a marca sem cor em seu dedo anelar.
Respira fundo, encara o teto do quarto e se senta.
“Não. Não é assim que acaba. Ainda tenho muito a fazer.”
Levanta da cama, e faz.
 

sábado, 25 de dezembro de 2010

Eis que surge o dia

Vivia numa casa tranquila. Modesta, mas tranquila.
Ele e a esposa. Ah, um rato cinza também.
Fora a lagartixa de estimação. Dizia que comia as moscas.
Uma bela manhã, saiu sem se banhar. Deixou apenas um bilhete na mesa da cozinha:
"Fui comprar cigarros, não sei se volto."
E não voltou.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

por onde andas?


fogo por fogo

pó por pó

lampejos de uma mente barata

ensaios de um mundo crú

somente vasos vazios

aquilo que se lamenta

por dentro uma só clemência

outro disco riscado

sempre uma caneta em mãos

domingo, 6 de janeiro de 2008

Assim


Quando tinha vontade de se afogar, respirava.
Quando sofreu por se animar, regurgitava.
Quando tinha fome, bebia.
Quando tinha frio, se animava.

Quando tinha cadência, se aninhava.
Quando tinha inocência, se escarnecia.
Quando tinha eminência, se equivocava.
Quando tinha decência, se encabulava.

Quando tinha vontade, se encolhia.
Quando tinha sede, se assumia.
Quando tinha carência, se esquivava.
Quando tinha medo, se encolhia.

Assim era a vida
Assim tinha que viver
Assim morria a trégua
Assim tinha de morrer

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

conversa pra boi dormir




Saiu de casa apressado, tropeçando em velhas caixas de madeira. Espalhafatoso como sempre, lembrara de um fato inconveniente. Não sabias mais como mudar, tudo em sua vida o levava ao descaso. Donato foi um dia um homem sério, casou-se, levava uma vida “normal”. O álcool lhe tirava os sentidos, transformara-o em algo disforme, distante de tudo que sonhara um dia. Mas, foda-se. Pensava. Tudo não passava de uma fase, uma porra de uma fase. Iria superá-la, ia vivendo, um dia após o outro, como lhe ensinaram um dia. Seus pais, seus amigos, todos à sua volta lhe davam conselhos cretinos. De como viveria sua vida.
- Donato, você está se acabando rapaz! Pare de beber! Pare de fumar! Pare de trepar! Pare! Pare! Pare!
Parece que as pessoas sabiam apenas essa frase: Pare! Pare!
Porra! Donato era dono de seu nariz! Sabia muito bem a hora de fazer as coisas, sabia o nível do álcool que ainda podia ingerir, sabia a quantidade de maconha que podia fumar, sabia quando e onde podia cheirar. Mas ninguém entendia Donato. Um filho da puta que tinha tudo acabou-se com nada.
Pensava com pesar: Ainda vou tomar tudo que me roubaram, principalmente a vergonha!
Foi nesse instante, sentado em um balcão de um bar qualquer na rua Augusta que ele viu Dorinha. Foi paixão à primeira vista. Não que Donato acreditasse nisso, mas Eu, que estou escrevendo esta merda, acredito.

sábado, 15 de dezembro de 2007

subindo a descida


Em uma escura e profunda noite clara,
O sol raiava e a chuva caía.
Enquanto os pássaros pastavam,
As vacas, de galho em galho pulavam.
Um vulto negro, inteiro de branco,
Nu, vestido em cetim, sentado em pé,
Em uma pedra de madeira, calado dizia:
Eu morro, mas não perco a vida.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

será?!

Seria mais fácil não ter medo,
Seria mais fácil não ter amado.
Seria mais fácil não tentar,
Seria mais fácil ter imaginado.
Seria mais nobre viver atento,
Seria mais nobre sofrer calado.
Seria mais nobre sentir o vento,
Seria mais nobre evitar o lado.
Seria mais louco soprar o barco,
Seria mais louco parar o mundo.
Seria mais louco pensar a fundo.
Seria mais louco sentir o asco.
Seria mais fácil ser nobre,
Seria mais nobre ser louco.
Seria mais louco ser fácil.
Seria mais lindo ser puro.